segunda-feira, 15 de agosto de 2016

o cigano




postais da ria (184)

o cigano


onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama

lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos

a lama invade tudo

chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos

reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem

partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também

o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se

o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino

sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

(torreira; porto de abrigo; 2016)

https://ahcravo.com/2016/08/15/postais-da-ria-184/

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Êxodo Platônico

O sol do teu sorriso
Fez meu dia amanhecer tão lindo
Já não choro mais chuvas de lágrimas

Chuvas de lágrimas por alguém


É tão triste a solidão
É como um veleiro em alto mar
Só o céu azul e essa imensidão
A noite... A brisa a te acalentar

Sou um navegante das emoções
O porto seguro quero encontrar
O doce farol que me iluminará
Nas noites de tormenta à me guiar

Como um velho lobo do mar
Sei que seu canto (de sereia) pode me matar
Mas correrei o risco de perder a direção
Bater contra os recifes, de naufragar

Manoel Hélio

Insônia

Amor... imenso...
Salário... mínimo...
Amor... eterno...
Salário... temporário...
Amor... alimenta...
Salário... mata...
Contudo baby...
Uma Pepsi matinal... para sentir seu sabor...
Um pãozinho com manteiga... que luxo!
Uma Coca noturna... sonhos delirantes...
Um pãozinho com manteiga... que alívio!
Portanto...
É tudo que tenho direito... no meu país,
Com um salário tão mínimo e
Um amor tão imenso...

(Manoel Hélio)



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

o meu país arde


como se anoitecesse e era manhã

postais da ria (183)


o meu país arde

o meu país arde
de abandono
e não há lágrimas
que apaguem
erros de anos

o meu país arde
de ter sido um dia
à beira mar plantado
da beira mar arrancados
os filhos mal amados

o meu país arde
o meu país arderá
até nada mais restar
que a memória do verde
e de terem havido árvores
que se tornaram naus e barcos

o meu país arde
como arderam os olhos
dos que partiram

quem se lembrou deles então?

(torreira; 8 de agosto de 2016)

https://ahcravo.com/2016/08/11/postais-da-ria-183/

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

meditação breve


o aparelhar do saco

crónicas da xávega (179)


meditação breve


como areia por entre as malhas
dos dedos estes dias

tece-se a rede com fios de raiva
cansaço desespero
por vezes

caminha-se e é o mar
sempre o mar
que dá destino aos passos
não os homens

teima-se
teima-se muito
mas o carnaval é o ano inteiro
e não há máscara
que não caia ao anoitecer

acendo um cigarro
que não fumo
abro uma cerveja
que não bebo
e faço de conta que existo
para me rir de mim

(torreira; 2010)

https://ahcravo.com/2016/08/10/cronicas-da-xavega-179/

sábado, 6 de agosto de 2016

do tamanho




os moliceiros têm vela (231)


do tamanho

(relendo fernando pessoa
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»)


olho à minha volta e vejo
que nesta terra
os que nela mandam
não têm sequer
o tamanho da altura que têm

como poderão ver?

(murtosa; regata do bico; 2013)

https://ahcravo.com/2016/08/06/os-moliceiros-tem-vela-231/

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

reinventar tudo



os moliceiros têm vela (230)


reinventar tudo

quando a nascente nega o rio
desaguar no deserto
não é assim tão estranho

há ainda flores por nascer
e um copo de água
não se nega a ninguém

hoje reinvento tudo

(murtosa; regata do bico; 2007)

https://ahcravo.com/2016/08/05/os-moliceiros-tem-vela-230/

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

ao meu funeral (que não vai haver)




os moliceiros têm vela (228)


ao meu funeral
(que não vai haver)


irão

alguns
para se despedirem

outros
por ser conveniente

muitos
para confirmarem que

o preto é uma cor
sempre na moda
emagrece e fica bem

e depois
roupa preta
quem a não tem?

EU!

(murtosa; regata do bico; 2009)

https://ahcravo.com/2016/08/03/os-moliceiros-tem-vela-228/

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

da amargura

cirandar

postais da ria (182)


da amargura

quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro

os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas

fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha

é tempo de ser outro

(torreira; julho; 2016)

o manuel fonseca (tala) ciranda berbigão

https://ahcravo.com/2016/08/01/postais-da-ria-182/

sexta-feira, 29 de julho de 2016

de mim




crónicas da xávega (178)

de mim

tudo o que te disserem
a meu respeito
é verdade

mesmo as mentiras

(torreira; companha do marco; 2013)

por entre os bordões cruzados, corre a manga, mantendo apertado o cerco e limpas de areia as redes

https://ahcravo.com/2016/07/29/cronicas-da-xavega-178/

quinta-feira, 28 de julho de 2016

nunca mais


o nevoeiro esconde o futuro


postais da ria (181)


nunca mais

à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos

o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia

do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria

olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória

sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem

não há futuro aqui
nunca mais

(torreira)

rapa-se os cabeços em busca de algum berbigão ou ameijoa

https://ahcravo.com/2016/07/28/postais-da-ria-181/

terça-feira, 26 de julho de 2016

do cigano




crónicas da xávega (177)


do cigano

pesam-me os dias
de tanta desilusão

olho tudo como se
me despedisse

cheio de memória
sei que parto
dobrado ao peso
de ter tentado

vivi demasiado
o que não devia

quem te mandou cigano
pensar ter casa

(torreira; companha do marco; 2010)

o luciano e o trovão, ainda andavam ao mar, a carregar o saco

https://ahcravo.com/2016/07/26/cronicas-da-xavega-177/

domingo, 24 de julho de 2016

o tempo é pouco




postais da ria (180)


o tempo é pouco

o  ignorante
não sabe que não sabe

o sábio
sabe que não sabe

os que não sabem
nem querem saber

ensina o sábio
que se ignorem

o tempo é pouco

(torreira)

https://ahcravo.com/2016/07/24/postais-da-ria-180/