quarta-feira, 22 de março de 2017

para o menino bonito



o meu povo trabalha duro
não tem tempo para brilhantinas
ordenados milionários
viagens em classe executiva

o meu povo
os copos que bebe
saem-lhe do corpo e sabem a sal

o meu povo
tem direito a ser respeitado
por todos
em especial pelos gravatinhas
que não o conhecem
nem falam a sua língua

o meu povo
respeita todos os povos
porque todos os povos
são o meu povo

o meu povo
tem a sabedoria dos dias de parca paga
que reparte com as mulheres
e os filhos

o meu povo
está cansado de meninos bonitos
com muita escola e poucos princípios

o meu povo
convida o menino bonito
para um dia de trabalho


(torreira)

https://ahcravo.com/2017/03/22/maos-de-mar-16/

terça-feira, 21 de março de 2017

Embaixada da Poesia


Inteiramente a favor de sempre persistir neutro. Até mudar de posição. 
(Madrugada de 15 de maio de 2015)

Acho que a era das raspadinhas passou. Ontem fui tentar a sorte e não achei nenhuma à venda. Não, não é trocadilho... Foi real. Cheguei à lotérica e não havia uma raspadinha sequer colada no vidro do caixa ou pendurada na banca de jornal logo em frente. Simplesmente sumiram! – Mas vamos ao que interessa, ou nem tanto... Hoje no trivial banheiro matutino fiquei pensando em quantas estradas escolhemos ao longo de nossas vidas; quantos caminhos dentro dos caminhos, quantos atalhos, ruas desertas, muros altos e baixos tivemos que pular... E os posicionamentos? Alguns rápidos em escolhas difíceis, alguns difíceis em longas escolhas, os lugares que dividimos e amizades que escolhemos ou que escolhem a gente. Algumas escolhas que adotamos nas nossas andadas nessa roda gigante alucinante chamada vida (na verdade está mais para montanha russa) têm implicações eternas, cicatrizes agudas que nos lembram todos os dias de tais fatos (lembro-me que já escrevi um poema sobre isso) – (esse papo de roda gigante lembrou-me do Tivoli Park que eu ia quando guri). Só você conhece tão bem suas estradas passadas, seus prantos feliz e triste, seus gigantes e anões abatidos, seus problemas sem solução e os solucionados, seus sonhos mais íntimos e pesadelos bizarros, gostos e desgostos, agradecimentos e revoltas. Só você conhece essas coisas tão bem. Mas mesmo assim poucas pessoas realmente se conhecem. Andamos em círculos quando não aceitamos aquele arrepio na nuca, aquele medo de tal passo, aquela ausência da zona de conforto. Para cada temor que haja comedimento; para cada angustia que haja paixão. Havia anteontem um belíssimo desenho em um muro que seguia e acabava ao longo do meu quarteirão, até a minha esquina. Ontem me deparei com tudo cinza, pois pintaram por cima – não entraram no clima. Hoje irão demolir o tal muro para construir uma enorme oficina. É o fim da linha; é o rabo abanando o cachorro. É quase um truque do destino, uma peça pregada pelo tempo que tem pressa em cima do fadário etário do velhinho de outra era. Já era! A criação faz de tudo para estar absoluto para o criador; no dia seguinte tudo é hoje e o amanhã é amanhã, mas o ontem sempre será passado. Duas vezes as estradas se cruzaram, uma no inicio e outra no fim; por duas vezes a vi desvairada, antes do início e antes do fim. É loucura, mas nunca foi dito o inverso; é sonho, mas nunca se acorda para saber. Dou uma dentada no meu sanduiche no pão doze grãos com alface, rúcula, manjericão, camarões médios fritos, queijo ricota e um pouco de açafrão. Açafrão é extraído dos estigmas das flores, do sexo delas; tem gosto aprazível e é um excelente tempero... A meu ver. Pão de maluco às uma e meia da manhã. Vou pintar meu corpo para a guerra, levar minha melhor espada e preparar meu grito. Preparo também o palpite e aposto todas as minhas fichas no inimigo... Perdendo ou ganhando eu ganho. É estranho? – realmente é! Já ouvi falar em alma que fica vagando sem poder pertencer a lugar algum. Ficam presas na lama do limbo, sem esperança e destino... Apenas ficam. Amanhã vou atrás das raspadinhas lá pelas bancas do centro. Quem sabe por lá tenho sorte.

André Anlub

eu





existe o sonho e a realidade entre ambos numa linha apenas numa linha quase invisível quase nada existo eu existo eu existo eu eu (torreira; 2010) https://ahcravo.com/2017/03/21/os-moliceiros-tem-vela-253/

segunda-feira, 20 de março de 2017

o poeta é





seres tu o poema
poesia os teus dias

o poeta é

o mais são palavras
em busca da luz

(torreira; 2017)

https://ahcravo.com/2017/03/20/postais-da-ria-205/

domingo, 19 de março de 2017

música para um filho da mãe no dia do pai






hoje
filho da mãe
é dia do pai

espero que te lembres
os teus filhos lembrar-se-ão de ti
e tu por tabela do teu

quero-te dizer filho da mãe
palavras poucas
que muitas não conheces
sabendo da tua natural ignorância

conheces a palavra desprezo?
se tiveres de recorrer ao dicionário
vai antes a net é um hábito teu
é mais simples e por vezes  acerta
e não é um livro

o que não te explica
nem te explicará nunca
é o sentimento expresso pela palavra

o que sinto por ti
filho da mãe
não há computador que te diga
nem mesmo se levares com ele nos ditos

cuidado que para a outra vez
se a houver
pode o telemóvel estar desligado

com esta me despeço
adeus
e não há retrocesso


https://ahcravo.com/2017/03/19/musica-para-um-filho-da-mae-no-dia-do-pai/

sábado, 18 de março de 2017

juntos



partiram alguns
ficaram poucos
cresceram todos

eu lembro-me de ter sido
mais um
que se lembrem eles de
de mim

agora que lhes devolvo
o termos sido
para sermos de novo

os putos da ria
e o ti cravo
juntos


(torreira; 2012)

https://ahcravo.com/2017/03/18/postais-da-ria-204/

sexta-feira, 17 de março de 2017

carta ao meu amigo ti miguel bitaolra




o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina

lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós

o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira

apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto

apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será

apeteceu-me agora
e agora foi mais forte

abraço ti miguel


(torreira; 2009)

https://ahcravo.com/2017/03/17/cronicas-da-xavega-194/

quarta-feira, 15 de março de 2017

milagres


mãos de mar, salgadas mãos



todo o inexplicável
ir-se-á explicando

entretanto
florescem milagres
nos jardins dos incréus


(torreira)

https://ahcravo.com/2017/03/15/maos-de-mar-15/

terça-feira, 14 de março de 2017

pergunta incómoda







ontem fui
hoje sou
amanhã não sei
se serei

e tu será que
hoje és
ou já foste?

(torreira; 2017)

https://ahcravo.com/2017/03/14/postais-da-ria-203/

segunda-feira, 13 de março de 2017

caminhos de areia


é verão e na areia ardem os pés


serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido

acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra

serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra

então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem

a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

(torreira; 2013)

https://ahcravo.com/2017/03/13/cronicas-da-xavega-193/

domingo, 12 de março de 2017

EDITAL ARTE NA RUA


sou vela


uma janela muito especial


abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que

ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos

ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos

vim de longe
não sei para onde vou
nem quando

mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela

mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias

sou vela


(torreira; regata do s. paio; 2016)

https://ahcravo.com/2017/03/12/os-moliceiros-tem-vela-251/

sábado, 11 de março de 2017

a desconstrução da beleza



diz-se "enfeitar"

sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória

não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não

sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram

então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos

a desconstrução da beleza
é criminosa

(morraceira; 2016)

https://ahcravo.com/2017/03/11/a-beleza-do-sal-14/

quarta-feira, 8 de março de 2017

mulheres da torreira






elas são donas de casa
elas vão ao rio
elas safam redes
elas parem filhos
elas lavam roupa
elas vendem peixe

elas são mariscadoras
elas são arraisas
elas cirandam
elas escolhem
elas cozinham
elas cosem roupa

elas fazem as contas
elas trabalham no mar
elas vão às compras
elas esperam que eles cheguem
da safra no mar alto

elas choram
elas riem
elas brincam
elas sofrem
elas estão sempre

elas são a camarada

(torreira)

teresa castelhana e a filha carla

https://ahcravo.com/2017/03/08/mulheres-da-torreira-3/

terça-feira, 7 de março de 2017

carta





sabes a quanto vendem os pescadores

o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?

sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?

quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?

procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço

se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos

e
nos enches de espanto

(torreira; 2016)

o simeão e a ciranda de um

https://ahcravo.com/2017/03/07/postais-da-ria-202/