quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Escritor e Seus Fantasmas

Reflexões do escritor argentino Ernesto Sábato, extraídas do livro: O Escritor e Seus Fantasmas.


A ARTE COMO CONHECIMENTO

Desde Sócrates, o conhecimento só podia ser alcançado mediante a razão pura. Ao menos foi esse o ideal de todos os racionalismos até os românticos, quando a paixão e as emoções são reivindicadas como fonte de conhecimento, momento em que Kierkegaard chega a afirmar que “as conclusões da paixão são as únicas dignas de fé”.
Os dois extremos, evidentemente são exagerados e o disparate provém de aplicar aos homens um critério válido para as coisas e vice-versa. É evidente que a raiva ou a mesquinharia nada acrescentam ao teorema de Pitágoras.
Mas também é evidente que a razão é cega para os valores; e não é mediante a razão nem por meio da análise lógica ou matemática que valorizamos uma paisagem ou uma estátua ou um amor. A disputa entre os que assinalam a primazia da razão e os que defendem o conhecimento emocional é simplesmente, uma disputa em torno do universo físico do homem. O racionalismo (não esqueçamos que abstrair significa separar) pretendeu cindir as diferentes “partes” da alma: a razão, a emoção e a vontade; e uma vez cometida a brutal divisão, pretendeu que o conhecimento só podia ser obtido através da razão pura. Como a razão é universal, como para todo o mundo e em qualquer época o quadrado da hipotenusa é a soma dos quadrados dos catetos, como o válido para todos parecia ser sinônimo da verdade, então o individual era falso por excelência. E assim se desacreditou o subjetivo, assim se desprestigiou o emocional e o homem completo foi guilhotinado (muitas vezes na praça pública e de fato) em nome da Objetividade, da Universalidade, da Verdade e, o que foi mais tragicômico, em nome da Humanidade.
Agora sabemos que estes partidários das idéias claras e definidas estavam essencialmente equivocados, e que, se suas normas são válidas para um pedaço de silicato, é tão absurdo querer com elas conhecer o homem e seus valores como pretender o conhecimento de Paris lendo seu guia telefônico e olhando sua cartografia. Hoje, qualquer um sabe que as regiões mais valiosas da realidade (as mais valiosas para o homem e seu destino) não podem ser apreendidas pelos abstratos esquemas da lógica e da ciência. E que, se com a inteligência apenas não podemos sequer assegurar-nos que o mundo exterior existe, tal como o demonstrou o Bispo Berkeley, que podemos esperar quanto aos problemas que se referem ao homem e suas paixões? E a menos que neguemos a realidade a um amor ou a uma loucura, devemos concluir que o conhecimento de vastos territórios da realidade está reservado à arte e somente a ela.

MARX E A LITERATURA BURGUESA

Um conhecido revolucionário do século XIX chamado Karl Marx, a quem ninguém pode acusar de tendências pequeno-burguesas, recitava Shakespeare de memória, se extasiava com Byron e Shelley, elogiava Heine e considerava esse reacionário do Balzac como um gigante admirável. E tanto ele como F. Engels se lamentavam de que um gênio como Goethe se rebaixasse ao filisteísmo e às honras do seu ministeriozinho ducal. Não ignoravam suas contradições humanas e filosóficas, sabiam perfeitamente até que ponto Goethe era um artista das classes reacionárias; mas, não obstante, o amavam e admiravam, o consideravam como uma contribuição definitiva à cultura da humanidade.
Bela lição para certos revolucionários de bolso.
Acho que o sinal mais sutil de que uma sociedade já está madura para uma profunda transformação social é que seus revolucionários se revelem capazes de compreender e recolher a herança espiritual da sociedade que termina. Se isto não ocorre, a revolução não está madura.

1 comentários:

Manoel Hélio disse...

Vanessa,

Sou seu fã!

Beijos.