quarta-feira, 27 de maio de 2009

De Lembranças e Fórmulas Mágicas

Otávio Paz diz que a partir da modernidade o poeta está irrevogavelmente isolado, solítário pelo afastamento de seu povo - que já não lhe reconhece como guardador de suas memórias.
Edson Bueno de Camargo parece ter encontrado, em De Lembranças & Fórmulas Mágicas, um artifício eficiente para reintegração com seu povo, através da redução de seu contingente ao grupo familiar.
Seus poemas, que ao princípio parecem representar unicamente sua memória pessoal demonstram-se, após leitura mais atenta, a memória de sua gente. Unindo assim o "particular ao universal", como ensinam os grandes mestres, sua história reflete a de muitos.
O título do livro tem um duplo sentido. É de lembranças e fórmulas mágicas o que Edson diz assim como a maneira escolhida por ele para dizer. Influenciado provavelmente pela poesia oriental, Edson propõe em seus poemas uma extensão formal do hai-kai. Muitos dos poemas iniciam-se com esse modelo de escrita que durante o restante dos versos parece estar sendo comentado, como em "ouvidos de gato": minha vó/com ouvidos de gato/ouvia toda a casa.
Outra fórmula, ou ingrediente dela, que Edson utiliza é uma unidade temática que funciona como um leitmotiv que atravessa que atravessa todo o livro tornando-o uma peça coerente e homogênea, sectaria de si mesma.
Tudo isso é feito sem ingenuidade. Edson vê a família não como um sistema em perfeito funcionamento, mas como uma organização inevitável de onde, além do bem e do mal, se pode ou se deve extrair tudo o que a vida é.
Diferente de seu livro anterior, O Mapa do Abismo, que reune poemas da juventude, Edson alcança em De Lembranças... uma admirável consistência em sua linguagem, além de abandonar o simples pessimismo por uma reflexibilidade mais atenta sobre a dinâmica das coisas.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Indicação de Livro

Pensei muito em como contribuir com o Blog e decidi indicar um livro que li recentemente e que achei ótimo:
Nós, os do Makulusu de José Luandino Vieira.

Se você gosta de livros intensos e poéticos, vale a pena ler o livro: Nós, os do Makulusu, que possui elementos significativos da prosa moderna. Partindo de um contexto concreto do início das lutas pela libertação de Angola, (implícito no texto) o autor escolhe o recurso da memória para contar a experiência do narrador frente à morte do irmão. A narrativa descontínua está diretamente relacionada à fragmentação da memória e do país. O tiro que inicia o livro desencadeia um processo de desintegração da vida e da identidade do narrador, diretamente relacionada com o momento de mudança pelo qual o país está passando. O recurso à memória da infância, além de permitir uma construção poética de alta densidade ligada ao mundo interior de “Mais Velho”, nos conduz por um passeio pelas ruas de Luanda que transformam essa memória em experiência vivida.
Acompanhamos “Mais Velho” de perto nas suas perambulações pelas ruas e bairros da infância, ruas que também não existem mais, como “Maninho”, o irmão querido perdido na guerra. Acompanhamos “Mais Velho” nas suas reflexões acerca dessa mesma guerra, suas dúvidas e hesitações em relação ao caminho que escolheu ou poderia ter escolhido nesse processo, no qual não há lugar para heróis, nem para “Maninho” que era “o melhor de nós”.
A opção do autor pela primeira pessoa (própria da memória), a utilização de uma linguagem de matriz popular e a mistura dos pronomes pessoais eu, tu e nosso abolem a tradicional distância entre autor e leitor, entre o narrador e o narrado e transformam o artista em representante do sujeito social coletivo. Há um projeto de igualdade implícito no texto, nas referências as origens diversas dos personagens e das suas escolhas individuais, como por exemplo, na figura mestiça da cunhada, tão fortemente repetida, não com o intuito de mostrar a diferença, mas a igualdade, ou a possibilidade dela, numa relação direta ao projeto de construção da nação.
A complexidade da obra permite possibilidades múltiplas de análise e interpretação, o que é um sinal evidente da qualidade do livro, dentro dos parâmetros da literatura contemporânea que valoriza a vinculação entre forma e conteúdo e a ambigüidade, parâmetros para os quais José Luandino Vieira não deixa nada a dever.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

AO MÉDICO DO REINO

Como menestrel do povo faço desta lira meu delírio e minha luta, nas tabernas, aldeias e prostíbulos deste imenso reino, onde os calabouços morais andam sempre cheios daqueles que estão sempre a dizer: O rei está nu!
Nas minhas sendas pela província de São Bernardo uma figura peculiar me chamou a atenção, talvez pela situação cômica porque não dizer beirando a tragédia.
Um médico candidato a arauto da Corte, só que entre os servos e a realeza há um abismo profundo, não tem como agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo, isso requer um exercício sobre humano de dramaticidade, precisa ser um ator dos bons.
Nas minhas lembranças de poeta errante lembro-me que tal médico foi expulso do partido do atual rei, o mesmo se aventurou no passado a concorrer a uma vaga na “Caixa de Pensões dos Serviçais da Província” não obteve sucesso nesta empreitada, não satisfeito candidatou-se ao “Sindicato dos Serviçais da Província” encabeçando uma chapa, onde sofreu uma derrota esmagadora, não satisfeito deu posse para a segunda colocada, chapa está apoiada pelo rei deposto.
A terceira chapa vencedora em números de votos tomou a sede do Sindicato e garantiu a vitória na Justiça.
Mais um candidato no reino, agora desta vez pela disputa para a “Câmara de Vereadores da Província”, nas eleições passadas o médico do reino teve uma votação inexpressiva.
Neste momento o médico do reino se coloca enquanto arauto da nova realeza recém empossada, os motivos que o move a ter tal postura não consigo visualizar.
Será que tal médico espera ser agraciado pelos bons serviços prestados em defesa do rei e contemplado com um bom cargo na futura reforma da saúde na província?

Manoel Hélio (foto)
poeta

Este texto foi publicado originalmente no site CLIQUE ABC.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

REVELANDO SÃO PAULO 2009/2010

O Revelando São Paulo é uma iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Unidade de Fomento e Difusão de Produção Cultural, em conjunto com a Abaçaí Cultura & Arte - Organização Social de Cultura. Foi concebido com o objetivo de ressaltar o universo da Cultura Paulista Tradicional dos municípios do Estado, dando a conhecer aos paulistas e ao Brasil, aspectos desconhecidos ou pouco divulgados da vida em São Paulo.

E vocês, nós, fazemos parte desta história, somos responsáveis pela sua realização, cada um cuidando com muita atenção do seu trabalho, da sua atividade, para que a soma de nossos esforços, seja a realização deste grande evento, o Festival da Cultura Tradicional Paulista.

Buscando melhorias em nossa qualidade de atendimento, estamos reformulando o sistema de inscrições do programa Revelando São Paulo edições 2009

Acompanhe o passo-a-passo

1º – Ficha do Município

O Dirigente de Cultura – responsável pela inscrição do município –, preencherá os dados da prefeitura em nosso site, após o envio das informações, receberá um email com confirmação e senha de usuário com link que dará acesso ao formulários de inscrições para todas as edições do Revelando São Paulo.

2º – Ficha do responsável

Primeira parte do formulário, deverá ser preenchido com dados do responsável pela inscrição do grupo ou expositor que deverá se apresentar à Produção durante o evento, ex. expositor de artesanato/culinária, líderes dos grupos de manifestações artísticas.

Nesta ficha haverá um campo para indicar a edição escolhida para participação.

3º – Ficha do Grupo ou Expositor

Continuação da Ficha do Responsável, com campos detalhando as informações dos grupo das manifestações e/ou expositores. Para dúvidas e mais informações, contatar a produção através do tel 3312 2900.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Tom Zé existe!

Tom Zé esteve sábado, 09 de maio, no Programa Raul Gil, recebendo a "Homenagem ao Artista".
Foi a presença artística em toda sua punjança em meio ao espetáculo fake do entretenimento.
Foi a tv envergonhada diante do real.
Foi Tom Zé, 72 anos, respondendo a afirmação de Raul G. de que ele era um gênio: "Gênio nada, eu sou japonês".
Foi Tom Zé chegando com um balde escrito "para chorar no raul gil".
Foram pessoas como um professor de Oxford, o coreógrafo do grupo Corpo, falando na tv aberta.
A banda estudando a bossa.
Tom Zé dizendo: "Agora eu sou artista, vagabundo: Tô no Raul Gil!" e existindo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

DE LISBOA PARA SÃO PAULO

19º CONCURSO DE CONTOS LUIZ VILELA

O Concurso de Contos Luiz Vilela, que homenageia com seu nome o escritor Luiz Vilela, nascido em Ituiutaba e aqui atualmente residindo, autor de vários livros, entre os quais “Tremor de Terra”, de contos, seu livro de estreia, e “Perdição”, romance, a ser em breve lançado, é uma promoção anual da Fundação Cultural de Ituiutaba, com o patrocínio da Prefeitura. Destinado a estimular a criação do conto e aberto a todos os escritores brasileiros, sejam eles inéditos ou já publicados, iniciantes ou já consagrados, o Concurso de Contos Luiz Vilela, prestes a chegar à sua 20.ª edição, é hoje, pelo valor de seu prêmio, pela qualidade de suas comissões julgadoras e pelo prestígio que confere aos seus ganhadores, o mais conhecido e disputado concurso de contos do país.

Regulamento

1 - A Fundação Cultural de Ituiutaba promove o 19.º Concurso de Contos Luiz Vilela.


2 - Do concurso poderão participar brasileiros residentes em qualquer estado da federação ou no exterior.

3 - A participação do concurso implicará na concordância automática do participante com todas as cláusulas deste regulamento.

4 - Os contos deverão ser rigorosamente inéditos.

5 - Cada pessoa poderá participar com quantos contos quiser, e não há para os contos limite de páginas nem quaisquer restrições de forma e conteúdo.

6 - É obrigatório o uso de pseudônimo, que será posto logo abaixo do título do conto e, com o título, repetido na parte externa de um envelope que acompanhará o conto e que deverá vir lacrado, trazendo em seu interior o nome do autor, endereço, e-mail, telefone e dados biográficos.

7 - Os contos deverão ser apresentados em quatro vias e digitados em corpo 13.

8 - O prazo para as inscrições termina, impreterivelmente, em 31 de agosto de 2009, valendo a data do carimbo do correio.

9 - Os contos deverão ser enviados para:

Fundação Cultural de Ituiutaba
Rua 20, n.° 1871
Ituiutaba, MG
38300-074

10 - Para julgar os contos, será formada, pela Fundação Cultural de Ituiutaba, uma comissão de três membros, escolhidos entre pessoas de notória competência na matéria.

11 - Ao autor do melhor conto será dado um prêmio, indivisível, em moeda corrente, no valor de R$ 5.000,00, importância da qual, em conformidade com a lei, será retido o percentual do Imposto de Renda.

12 - Além do conto premiado, nove outros serão selecionados, sem ordem de classificação, pela comissão julgadora, para, juntamente com o premiado, constituírem um livro.

13 - O livro com o conto premiado e os selecionados será publicado pela Fundação Cultural de Ituiutaba, no primeiro semestre de 2010, numa edição de 1.000 exemplares, com distribuição gratuita e da qual caberão a cada um dos autores e dos membros da comissão julgadora 10 exemplares.

14 - De cada autor não poderá figurar no livro mais que um conto.

15 - O resultado do concurso sairá em 1.º de dezembro de 2009 e estará, a partir desta data, disponível no site da Fundação Cultural de Ituiutaba, www.fculturalitba.com.br.

16 - A entrega do prêmio ocorrerá no dia 11 de dezembro de 2009, na sede da Fundação Cultural de Ituiutaba, devendo o ganhador vir, por sua conta, recebê-lo pessoalmente.

17 - Não haverá, em nenhuma hipótese, devolução dos contos concorrentes, os quais, findo o concurso, e com a óbvia exceção do conto premiado e dos contos selecionados, serão incinerados, juntamente com os envelopes de identificação.

18 - Poderá a comissão julgadora deixar de dar o prêmio se achar que a ele nenhum dos contos faz jus, e, neste caso, não haverá também a seleção dos nove contos e a publicação do livro.

19 - As decisões da comissão julgadora são irrecorríveis.

20 - Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Fundação Cultural de Ituiutaba.

Ituiutaba, 1.° de janeiro de 2009.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Orides Fontela

O "hai-kai" que diz só ela/orides fontela/é dela comenta de maneira muito precisa a originalidade essencial do trabalho da poeta paulista, obra densa, vertiginosa e regularíssima, apesar da brevidade de seus poemas, que tem na autoria seu aspecto mais evidente.
A reunião das obras completas de Orides pela Cosac e Naify é, mais que um evento editorial, um acontecimento humano notável que se desdobra em tudo o que proporciona a grande poesia: política, reflexão, emoção, pássaros, existência.
Há algo em Orides que, como em Clarice, ultrapassa a temática para abertura de sentidos múltiplos e infindáveis, e que advém sobretudo de um mundo interior extremamente complexo. Por isso lê-la nos faz querer também conhecê-la, perdida na miséria e no anonimato em que sempre viveu.