quarta-feira, 30 de junho de 2010
A Arte de Ler - Adeilton Lima - Poemas com Putas - Marçal.
Projeto A Arte de Ler - A poesia brasileira e universal por Adeilton Lima. Câmera: Stéffannie Oliveira
Pelé eterno ou Pelé, o atleta do século.
(Comentário sobre o filme “Pelé Eterno”)
Nome original: Pelé eterno ou Pelé, o atleta do século
Produção: Brasil
Ano: 2004
Idiomas: Português, Alemão
Diretor: Anibal Massaini Neto
Roteiro: Armando Nogueira, José Roberto Torero
Gênero: documentário
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/
Daniel M. Delfino
03/07/2004
Texto extraído do site Espaço Socialista.
Vídeos do DGABC - São Bernardo do Campo - Basquete.
Entrevista com o time campeão do sulamericano de 2009: São Bernardo (ABA-SBC), categoria mini.
Final do Campeonato Paulista Pré-Mirim de Basquete 2008.
Jogo: São Bernardo x Circulo Militar
Local: Circulo Militar - SP
Final São Bernardo Campeão Paulista - placar 59x58
"Eu só vi isso acontecer em filme! É por isso que hoje o George Lucas recebe o carinho de todos nós aqui do TRIBUNA ESCRITA."
George Lucas, o melhor do basquete em 2009.
Danilo Gentili sofre agressão em São Bernardo.
Manoel Hélio - São Bernardo - 29/06/2010.
[1] Kurtas e Pikantes, 13/08/2009.
FONTE: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/2350459, acessado em 29/10/2010.
terça-feira, 29 de junho de 2010
DANILO GENTILI SOFRE AGRESSÃO EM SÃO BERNARDO - Parte 1
CQC recebe denúncia de uma escola ameaçada por desabamento de um barranco em São Bernardo do Campo. Durante a reportagem, o repórter Danilo Gentili é agredido por guardas municipais.
DANILO GENTILI SOFRE AGRESSÃO EM SÃO BERNARDO - Parte 2
O repórter Danilo Gentili foi ouvir o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, sobre o caso de agressão e a situação da escola.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Aberta a consulta pública da reforma da Lei de Direitos Autorais
Primeira leitura da proposta de reforma da lei de direitos autorais
Depois de quatro anos de discussão e debate com os setores interessados, o governo finalmente publicou o projeto que reforma a lei de direito autoral (disponível em: http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral). Embora com atraso, a publicação ainda assim deve ser louvada. Abaixo, proponho uma primeira leitura dos principais pontos positivos e negativos do projeto da perspectiva do acesso ao conhecimento.
Pontos positivos
1) “Numeração”
O projeto introduz, no seu artigo 30, a exigência de controle de cópias (seja a numeração dos exemplares ou o controle eletrônico) que permitirá que o autor monitore a quantidade de cópias produzidas. Hoje, é muito difícil para um escritor ou intérprete controlar a quantidade de discos produzidos ou livros impressos e evitar que seja enganado pelo seu editor ou gravadora. Com esse controle de cópias, a fraude se torna um pouco mais difícil.
2) Cópia privada
O texto, no inciso I do artigo 46, reintroduz na nossa lei a cópia privada (que já existia na lei de 1973). Assim, finalmente passa a ser autorizado fazer uma cópia extra, de backup ou de proteção dos bens culturais legitimamente adquiridos. No entanto, a lei mantém uma redação muito ambígua e ruim, quando fala da “a reprodução, por qualquer meio ou processo, de qualquer obra legitimamente adquirida, desde que feita em um só exemplar e pelo próprio copista, para seu uso privado e não comercial”. A exigência de que seja feita pelo próprio copista e que esteja restrita a um exemplar simplesmente não faz sentido. Uma pessoa que adquire um livro e quer tirar uma fotocópia para riscar sem danificar o original terá que ter uma copiadora em casa? Não poderá solicitar a uma copiadora para fazer a cópia? Essa ambigüidade de redação que já está no inciso II da lei em vigor já dá muita disputa interpretativa. E porque a restrição a uma única cópia para uso privado do copista? E se o dono do exemplar adquirido quiser compartilhar a cópia com a sua família? No nosso exemplo, marido e mulher que queiram cópias para não rabiscar o livro, terão que adquirir dois exemplares? Leis de outros países estendem o direito de cópia privada a familiares e outras pessoas do círculo íntimo do proprietário do exemplar e autorizam explicitamente mais de uma cópia. Se o objetivo é colocar de maneira inequívoca as práticas razoáveis na legalidade, o texto ainda pode ser melhorado.
3) Mudança de formato
No mesmo artigo 46, no inciso II, inclui-se o direito de quem adquire uma obra, de mudá-la de formato – ou seja, poderemos finalmente comprar um CD e transformá-lo em MP3 para tocar no Ipod, sem cometer um ilícito. A medida é muito boa, mas, novamente, a restrição para uso privado e não comercial é equívoca. Uma casa, na qual a família seja fã da mesma banda, poderá compartilhar cópias em MP3 produzidas a partir do mesmo original? A redação não deixa isso muito claro – e, por isso, seria melhor que ela copiasse a redação de outros países que explicitamente autoriza a cópia de mais de um exemplar e o compartilhamento no círculo íntimo do proprietário.
4) Peças, músicas e filmes na escola, em casa, nos cineclubes e nas igrejas
Os incisos VI e XV do artigo 46 autorizam a livre apresentação da peças, exibição de filmes e execução de músicas no ambiente escolar, no âmbito familiar, nos cineclubes e nas igrejas, desde que sejam gratuitas e sem finalidade de lucro. Com isso, coloca-se na legalidade um grande número de professores que utilizam filmes e músicas como material didático e as escolas que apresentam peças interpretadas pelos estudantes como exercício teatral. Passamos também a poder cantar “Parabéns para você” em festas domésticas sem o risco de sermos importunados pelo ECAD, as Igrejas podem executar livremente canções religiosas protegidas e os cineclubes podem exibir livremente seus filmes sem ameaças.
5) Reprodução para fins de preservação do patrimônio cultural
Outro dos grandes absurdos da atual lei passa a ser corrigido. O inciso XIII do artigo 46 passa a permitir que bibliotecas, museus e cinematecas façam cópias livremente para preservar o patrimônio cultural do país. Hoje, se uma cinemateca não localizar o titular do direito autoral e conseguir dele uma autorização, ela não pode, em tese, reproduzir o filme para preservá-lo – e o filme simplesmente se perderia.
6) Obras esgotadas
O inciso XVII do artigo 46 autoriza a livre cópia, sem finalidade comercial, de obras esgotadas. Esse é outro dos grandes absurdos da lei atual. Cerca de um terço de toda a base bibliográfica dos nossos cursos superiores está esgotada e as nossas bibliotecas não têm exemplares antigos para suprir a demanda. Com essa medida, nossos estudantes e professores poderão reproduzir as obras esgotadas para uso em sala de aula.
7) Uso educacional
O parágrafo único do artigo 46 passa a autorizar o livre uso de obras para fins educacionais, científicos e “criativos” desde que respeitem a chamada regra dos três passos que aparece no inciso II – ou seja, devem ser feitas “na medida justificada para o fim a se atingir, sem prejudicar a exploração normal da obra utilizada e nem causar prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores”. A medida é boa, mas a reprodução da regra dos três passos vai dar origem a interpretações conflitantes e muitas disputas no judiciário. Em tese, essa cláusula geral deveria ser uma salvaguarda para novas limitações não previstas, mas ela terá de dar conta de uma situação específica, muito bem prevista, a cópia de livros para uso educacional da universidade, sem finalidade de lucro, seja por meio da Internet, seja por meio da reprografia não comercial (nas universidades públicas). Seria muito melhor que a ambigüidade e o litígio judicial fossem evitados e tivéssemos uma limitação clara dizendo que a cópia sem finalidade comercial para uso educacional e científico é livre. Se incluíssemos um inciso específico para a educação, essa cláusula geral seria um bom complemento para incorporar usos públicos não previstos.
8) Paródia
O artigo 47 autoriza claramente a paródia, ampliando a liberdade de expressão para a crítica, inclusive humorística. Um grande avanço.
9) Licenciamento compulsório
O artigo 52B traz uma inovação: a licença compulsória de direitos autorais. O presidente da república passa a ter a prerrogativa de autorizar, quando requisitado, o licenciamento voluntário de obras esgotadas, de obras cujos detentores de direito criam obstáculos não razoáveis à exploração, de obras cujos detentores dos direito são desconhecidos (as chamadas “obras órfãs”) e de obras cujos detentores de direitos não autorizam a reprografia. A medida é inovadora e positiva, na medida em que permite que esses abusos sejam corrigidos por uma licença governamental. Como a licença compulsória de patentes, o efeito coibitivo de más práticas talvez seja mais eficaz que o uso efetivo do dispositivo.
10) Supervisão da gestão coletiva
Organizações de gestão coletiva (como o ECAD e as associações que o compõem) passam a ser fiscalizadas pelo poder público nos termos dos artigos 98, 98A e 98B. O governo responde assim a diversos atores do mundo da cultura, de criadores e radiodifusores a consumidores que reclamam da atuação destas associações que não divulgam seus procedimentos e processos e são muito pouco democráticas na sua gestão. O artigo 98B especificamente exige publicidade e transparência das associações de gestão coletiva.
11) Jabá
A prática do Jabá, o pagamento a um veículo de radiodifusão para executar uma música, passa a ser proibido pelo artigo 110B que o equipara a infração da ordem econômica prevista na lei 8.884 de 1994. Mais uma medida necessária para por fim a essa prática muito semelhante à corrupção que é praticada à luz do dia.
Embora o conjunto da proposta seja muito positivo, há alguns pontos que ainda estão ruins e que precisam ser modificados no processo de consulta pública:
1) Proteção de normas técnicas
O artigo 8o, inciso VIII, deixa de proteger as normas técnicas, medida excelente, mas observa que a medida se faz “ressalvada a sua proteção em legislação específica”. O que poderia significar essa ressalva? Um dos grandes absurdos que temos no atual cenário é que a ABNT reclama direitos autorais sobre normas técnicas. Se a norma técnica, como o nome diz, é um texto normativo, ela deve ser de livre difusão para que a sua normatividade seja eficaz. No entanto, a ABNT utiliza a venda das normas para se manter, o que gera situações descabidas, como a dos nossos estudantes não encontrarem na Internet as normas sobre citação ou atribuição de referências, sendo obrigados a comprá-las a preços proibitivos.
2) Prazo de proteção
O prazo de proteção do direito autoral permanece, segundo o artigo 41, nos inexplicáveis 70 anos após a morte do autor. Como o direito internacional obriga a “apenas” 50 anos após a morte do autor, não há motivo para não aproveitar a reforma e reduzir esse prazo de proteção absurdo. Recentemente, vimos o impacto positivo que a queda em domínio público de uma obra pode trazer, quando os escritos de Freud finalmente passaram a estar disponíveis em traduções concorrentes e direto do alemão. Tivemos que esperar inacreditáveis 120 anos.
3) Obra rara e não publicada no país
Uma ausência notável no texto diz respeito ao acesso às obras raras ou não publicadas no país – e que deveria estar previsto no artigo 46. O acesso a esse tipo de obra é um problema tão notável que a norma interpretativa da USP sobre reprografia autoriza a cópia nestes casos. De novo, para evitar ambigüidades, deveríamos ter uma previsão específica e inequívoca para esse tipo de obra.
4) Reprografia (Xerox)
O projeto de lei cria um capítulo específico para disciplinar a reprografia, tentando por fim ao intenso e desgastante litígio entre editores e a comunidade universitária. No entanto, a redação do artigo tem muitas incoerências e o resultado pode ser muito prejudicial aos estudantes. Embora o corpo do artigo 88A só se refira à reprografia “com finalidade comercial ou intuito de lucro” a redação do inciso II confunde as coisas ao mencionar a “reprodução mediante pagamento”. Ao final de contas, de quê trata o artigo, da reprodução comercial ou da reprodução mediante pagamento? As duas coisas são diferentes. Posso muito bem ter reprografia nas universidades, realizada mediante pagamento, mas sem “finalidade comercial ou intuito de lucro”, apenas cobrando para cobrir os custos do serviço prestado. Se a redação esclarecer essa ambigüidade, resta ainda outro grande problema. O inciso II estabelece que as copiadoras deverão “obter autorização prévia dos autores ou titulares das obras protegidas ou da associação de gestão coletiva que os representem”. Ora, nada disso é realmente necessário. Os editores já têm uma associação que, em tese, foi constituída para esta função que é a ABDR. Ela já pode, nos marcos da lei atual, arrecadar direitos autorais nas copiadoras (o que, aliás, já existiu no passado), mas ela simplesmente não quer autorizar o xerox recolhendo direitos autorais. Por que deveríamos esperar que ela passasse a querer agora? Parece evidente que a ABDR vai travar esse mecanismo – e a ameaça de licenciamento compulsório não vai ter qualquer efeito, porque este tipo de licenciamento, pelas suas próprias características, deve ser excepcional e não pode ser aplicado a um grupo muito grande de obras. Por fim, ainda que todos esses problemas fossem resolvidos, devemos pensar se realmente é necessário que os nossos estudantes paguem direitos autorais pelo Xerox. O Xerox não concorre com o mercado de livros (o Xerox é fracionado e perecível) e, portanto, não causa prejuízos comprovados a esse setor. Além disso, o adicional para o pagamento de direitos autorais deve onerar nossos estudantes, em especial os mais pobres, que já têm um orçamento muito reduzido. A estimativa para um estudante de humanidades é do pagamento de cerca de 80 reais anuais de direito autoral, o suficiente para comprar 2 ou 3 livros integrais.
Apesar destes problemas, as virtudes compensam de longe os defeitos do projeto. Precisamos, neste momento, ampliar a discussão da lei de direitos autorais e trabalhar por mudanças na consulta pública e, em seguida, para sua rápida tramitação no legislativo.
* Agradeço a Maria Carlotto, Arakin Monteiro, Denise Bottmann e Carolina Rossini pelos comentários e sugestões. Eventuais erros são exclusivamente meus.
** Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai-USP – www.gpopai.usp.br) e membro da Rede pela reforma da lei de direito autoral (www.reformadireitoautoral.org)
http://www.reformadireitoautoral.org/
Roberto Piva lê seus poemas
— Roberto Piva, em filme de Ugo Giorgetti, lê seus poemas. Introdução pelo também poeta Claudio Willer.
Veja mais em http://www.sibila.com.br/
PEÕES (DEBATE SOBRE OS FILMES DA CAMPANHA DE LULA EM 2002)
Nome original: Peões
Produção: Brasil
Ano: 2004
Idiomas: Português
Diretor: Eduardo Coutinho
Roteiro:
Elenco: Maria Socorro Morais Alves, José Alves Bezerra, Zacarias Feitosa de Morais
Gênero: documentário
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/
O filme de Eduardo Coutinho se constitui de 21 depoimentos de ex-operários que foram liderados por Lulla nas greves de 1979-80. Em plena campanha do ex-peão à Presidência, em 2002, os seus ex-companheiros refletem sobre suas vidas e sobre o significado que sua relação com o ilustre ex-líder sindical teve para elas. O grande interesse do filme são essas vidas, as trajetórias dos peões entrevistados. A trajetória de Lulla e a eleição servem apenas de ilustração para elas. De pano de fundo histórico.
Por meio desses depoimentos, podemos evidentemente ter uma amostra do que significa socialmente e historicamente a eleição de Lulla. Eleição à parte, porém, o filme tem um grande interesse humano, que transcende o processo das eleições. Ele vale muito esteticamente por si mesmo, independente da conjuntura política. Nenhum comentário como o aqui apresentado pode é claro pretender substituir a experiência de assistir o próprio filme. Pode apenas tentar sinalizar algumas das linhas temáticas consideradas mais significativas. As questões relativas à campanha eleitoral, aos seus “Entreatos” e ao próprio governo Lulla são debatidas nos demais textos desta série.
É impossível também registrar aqui nominalmente os depoimentos de cada um dos “Peões”. Cada um é como um capítulo de um livro, cada um conta uma interessantíssima história e revela uma personalidade humana única, que tem muito a nos ensinar com suas vivências. Em “Peões” conhecemos uma série de figuras humanas muito ricas. Pessoas de vocabulário paupérrimo, experiência valiosíssima e sabedoria aguda. Encontramos doses fartas de ingenuidade, sinceridade e honestidade. Um dos aspectos a se destacar a esse respeito é a extraordinária capacidade do entrevistador de fazer com que seus entrevistados falem de si. Marca de toda sua obra.
O filme de Eduardo Coutinho é um documentário que documenta a sua própria produção. “Peões” se utiliza muito significativamente de trechos de outros filmes como “ABC da greve” de Leon Hirszman, “Linha de montagem” de Renato Tapajós e “Greve” de João Batista de Andrade, todos realizados no decurso das históricas greves do ABC de 1979-80 e lançados imediatamente após os acontecimentos. Alguns trechos importantes destes filmes são reproduzidos para ilustrar as falas dos peões.
É a partir desses filmes que Eduardo Coutinho chega à sua lista de entrevistados. Para produzir a lista, o cineasta pede a alguns dos grevistas históricos de 1979-80, ainda reunidos em torno do Sindicato dos Metalúrgicos, que identifiquem, em cenas dos filmes citados e em ilustrações de revistas e jornais da época do movimento, os companheiros dos quais pudessem lembrar os nomes. Os nomes daqueles rostos anônimos na multidão. É com esses nomes que o diretor trabalha para chegar ao “elenco” do filme.
A maioria absoluta dos entrevistados é composta de nordestinos. Migrantes que mesmo depois de décadas não perderam o forte acento regional na pronúncia. É sempre interessante ver num filme como este a disposição de mostrar a verdadeira face do povo brasileiro, a grande massa daqueles que nunca são protagonistas, agora ocupando brevemente o merecido lugar de destaque. Em “Peões” não temos os pobres estilizados das novelas da Rede Globo, com seu sotaque nordestino fajuto.
Os nordestinos são o principal componente da classe operária que se forma no Brasil a partir da industrialização que toma impulso nos anos 50. Esse componente nordestino se sobrepõe e em menor medida se mistura às demais frações operárias anteriores a esse surto de industrialização, como os italianos, que predominavam desde o fim do século XIX. A história contada em “Peões” é a de toda uma geração. Os personagens ali retratados são representativos da trajetória de outros milhões de migrantes que vieram para São Paulo para “ganhar a vida” (como fez o pai deste escriba).
“Peões” não enfeita o passado. A história dos grevistas não é uma história com final feliz. Muitos deles foram demitidos ao final das greves e já não são “peões” desde então. É importante lembrar que na época das greves a economia brasileira ainda estava em crescimento. Em se saindo de um emprego, era possível conseguir outro. Situação muito diferente daquela que se vive nas últimas duas décadas perdidas. Hoje, muitos dos ex-peões vivem portanto de outras profissões. Mas lembram com orgulho a participação na luta sindical da época.
“Tecnicamente”, as greves lideradas por Lulla em 1979-1980 foram greves fracassadas. As reivindicações especificamente econômicas não foram concedidas naquele momento. Os grevistas foram nesse sentido derrotados. Entretanto, politicamente, as greves foram vitoriosas, pois produziram uma elevação da consciência de classe entre os operários. A classe operária brasileira agora tinha um exemplo de ação e um ponto de referência político. As greves do ABC de 1979-80 foram o ponto de partida para a fundação da CUT e do PT. Outras greves viriam e outras conquistas seriam obtidas nos anos seguintes. O impulso ali iniciado beneficiou outros setores da classe trabalhadora. Uma das mulheres entrevistadas, que não chegou a trabalhar nas montadoras do ABC, diz que se sente “metalúrgica de coração”, porque era a luta dos metalúrgicos que inspirava o conjunto dos trabalhadores brasileiros de então.
Quando se fala de luta, não se trata apenas de uma metáfora, mas de uma descrição literal dos fatos. Como em toda greve, a polícia está sempre a serviço da classe patronal. Os operários que querem tentar impedir os companheiros de trabalhar são recebidos na porta das fábricas pelos cacetetes dos policiais (como acaba de acontecer a este escriba, mutatis mutandis, na greve dos bancários de 2004).
A vida de operário e a militância sindical é uma luta que deixa cicatrizes físicas (menciona-se o inevitável dedo perdido de Lulla) e também morais. A história dos “Peões” é uma história de sacrifícios pessoais. Os grevistas que participavam de piquetes, manifestações e assembléias deixavam as famílias em segundo plano. Sobre esse ponto, não manifestam arrependimento, mas uma consciência dolorida de uma lacuna em suas vidas, a qual tentam de diversas maneiras reparar, com maior ou menor sucesso em cada caso. Militância e família são antíteses difíceis de serem conciliadas.
Um dos aspectos que salta à vista em “Peões” é a grande presença de mulheres. Alguns dos depoimentos mais fortes e mais emocionantes são de mulheres. A luta dos grevistas não era uma luta sustentada exclusivamente por homens-chefes-de-família, era uma luta de famílias inteiras, de mães, esposas, irmãs e filhas. E as mulheres não desempenhavam apenas um papel ancilar, mas também tomavam frente na luta, participando tão ativamente da militância sindical quanto os homens.
Também havia mulheres operárias envolvidas no movimento. E não apenas as operárias tem coisas importantes a dizer. As mulheres em posições “subalternas”, serventes, copeiras e faxineiras do sindicato, também eram companheiras na luta. A solidariedade de classe não fazia distinção de campo de trabalho. A luta era dos metalúrgicos e de todos os trabalhadores. Foi graças a uma então faxineira do sindicato dos metalúrgicos que o filme “Linha de montagem” escapou da apreensão pela Polícia Federal, em 1980, de modo que a história da greve pudesse ser contada. A hoje copeira, apesar de iletrada, mostra uma consciência muito mais aguda que a de muitos intelectuais da importância de que as pessoas conheçam a História.
Do ponto de vista dos peões entrevistados, a participação no movimento social faz parte da vida de operário. Ser operário não é apenas trabalhar em fábrica, é participar das lutas dos companheiros trabalhadores. Não se distingue neste filme o orgulho por um desses aspectos do outro. Não se fala apenas das greves, mas da vida de trabalhador em todos os seus aspectos. Os “Peões” retratados no filme demonstram um peculiar orgulho pelo trabalho realizado nas linhas de montagem.
Um dos grevistas, posteriormente demitido, lembra com orgulho que seu filho apontava todos os caminhões da marca Mercedes, dizendo: “ali tem uma peça que o senhor colocou”. O verdadeiro peão se orgulha não só do esforço despendido no trabalho, mas da qualidade do trabalho por ele executado. O último dos “Peões” pergunta: “você já foi peão?” ao entrevistador, e através dele, a todos os espectadores. Com isso ele explica que só quem o foi entende esse orgulho por um trabalho braçal tido como degradante.
Outro se lembra com orgulho de que trabalhou um ano inteiro fazendo apenas três dias de descanso, para com o dinheiro das horas-extras construir a casa em que mora. Em outro momento, como em “Tempos modernos” de Chaplin, vemos o depoimento de uma operária que teve os movimentos do corpo condicionados pelo ritmo das máquinas. Os braços se moviam à noite repetindo os mesmos movimentos realizados durante o dia na fábrica.
As marcas físicas e emocionais daquele período persistiram por toda a vida dos entrevistados. Mas como dissemos, não se trata sempre de histórias com finais felizes. Um dos aspectos mais dolorosos mostrados em “Peões” é o da velhice abandonada. Muitos dos grevistas históricos são hoje idosos, aposentados, solitários, abandonados por suas famílias. Alguns encontram consolo e sustentáculo material na religião, geralmente evangélica.
Entretanto o que restou para a maioria foi uma fidelidade ao personagem paradigmático de Lulla. O tema de sua eleição é um dos assuntos inevitáveis no documentário. Muitos dos peões, além de continuarem fiéis às idéias políticas da época em que participaram diretamente da luta, continuam diretamente envolvidos na luta prática, participando de diversas formas de militância.
Uma das frases mais marcantes é a de que “os mandatos passam, os trabalhadores ficam”. Isso indica a percepção de que a luta de classes produz resultados coletivamente e a longo prazo. A História não pertence a Lulla e ao PT, mas ao conjunto da classe operária brasileira. Apenas em uma das falas transparece a percepção de que foi Lulla o eleito (o que então seria eleito), não o PT. Ou seja, não o projeto original do PT, que era um projeto classista, mas um projeto ancorado na projeção pessoal de Lulla.
Seria interessante confrontar a expectativa daqueles peões ali, no momento da eleição, com a avaliação que fariam hoje do governo Lulla. Isso seria porém um outro filme, uma obra de natureza completamente diferente daquela que temos em mãos. Mas mesmo assim, “Peões” deixa algumas pistas. Outro entrevistado cita a promessa de campanha de Lulla: “Eu não vou governar para meia dúzia de banqueiros”. Diante da possibilidade do descumprimento da promessa, o entrevistado avisa, com sua objetividade tipicamente nordestina: se a promessa não for cumprida, “o bicho vai pegar”.
O encerramento do filme se dá com a discussão da situação dos “Peões” de hoje, mais de vinte anos depois das greves históricas do ABC. A discussão se dá por meio do depoimento de um operário que veio da cidade onde trabalha apenas para votar em Lulla. Na definição lapidar por ele apresentada, o peão é aquele que bate cartão. Essa definição revela uma afiada percepção do funcionamento da economia capitalista. O trabalhador que bate cartão é aquele que tem o seu tempo de trabalho controlado pelo patrão. O controle do tempo de trabalho é o que propicia a mais-valia ao capital. O peão é portanto aquele indivíduo que está no centro ativo do sistema capitalista, o seu centro produtivo. No entanto, a realidade do peão hoje é a do trabalhador precário, que trabalha por empreitada, freqüentemente terceirizado, sem segurança do emprego.
A tendência do sistema capitalista é cada vez mais excluir trabalhadores das linhas de montagem. O sistema tenta excluir o ser humano da produção, na mesma medida em que precisa dele para consumir sua produção. Ao mesmo tempo que a diminuição do número de proletários é um tendência econômica conjuntural, a existência do trabalhador assalariado é uma necessidade sistêmica estrutural do capitalismo. Por mais que o sistema queira excluir a realidade de sua existência, esta se afirma reiteradamente a cada objeto fabricado. Os “Peões” insistem teimosamente em se fazer aparecer na História.
Daniel M. Delfino 23/11/2004
PEDRA - MISTURO TUDO E APLICO
— www.pedraonline.com.br - Pedra
Colagem de videos para a faixa Misturo Tudo E Aplico.
Participações do Grupo Teatral Comédia De Gaveta e do Cezar de Mercês Parabelum.
Banda de São Paulo,Independente.
Rodrigo Hid -Guitarra/Teclados/Vocais
Xando Zupo - Guitarra/Vocais
Luiz Domingues - Baixo/Vocais
Ivan Scartezini - Bateria
Todo apoio às lutas: greve na USP, Judiciários...
É uma situação semelhante a da Grécia, em que os trabalhadores têm feito várias greves gerais para defender seus direitos trabalhistas. O Brasil ainda não está na mesma situação porque as dívidas do governo, embora altas, ainda estão sendo pagas. A situação parece estar sob controle e deve continuar assim, pelo menos até as eleições, pois o próximo governo, seja ele qual for, terá que ser mais duro contra os trabalhadores para continuar ajudando os empresários.
O governo já se adiantou e vêm utilizando formas de repressão que estão sendo usadas contra aqueles que ousam lutar.
Um Congresso corrupto vota leis que defendem a propriedade privada e os lucros dos empresários. A Justiça, formada por membros da classe dominante, julga e manda a polícia e as forças armadas para matar e prender os trabalhadores. E quando os trabalhadores que estão em luta são mortos, os assassinos e seus mandantes saem livres. Um governo que se diz democrático e popular ajuda os empresários e deixa os trabalhadores serem atacados.
Como patrão dos servidores públicos, o governo endurece contra as greves. Trabalhadores/as da USP, UNESP e UNICAMP, servidores do judiciário estadual e federal estão em greve há mais de 30 dias enfrentando o governo e a repressão. É o caso dos servidores da USP(cuja reitoria mandou cortar o ponto dos grevistas), UNESP E UNICAMP. Na greve dos servidores da justiça federal, está sendo exigido que 60% dos trabalhadores permaneçam em serviço, ou seja, na prática, querem impedir que os trabalhadores entrem em luta e usem o direito legítimo de greve para defender seus salários e condições de vida. Essas greves precisam de todo nosso apoio, pois a imprensa patronal boicota todas elas.
O governo não dá aumento porque quer direcionar todo o dinheiro para o pagamento da dívida externa e para ajudar os banqueiros. O governo, com essa política, escolheu o lado dos ricos e poderosos. E nós também escolhemos o nosso: estamos incondicionalmente do lado dos trabalhadores, que lutam.
Outra questão importante é a luta contra a criminalização dos movimentos sociais. Mesmo que tenhamos críticas aos dirigentes do MST, somos solidários aos que estão na linha de frente das ocupações e da resistência, que enfrentam diariamente a morte, a perseguição e a prisão por lutarem contra o latifúndio.
Mesmo que não estejamos no mesmo partido do companheiro Aldo Santos, ex-vereador de São Bernardo, não podemos aceitar a perda dos direitos políticos como punição por sua luta em defesa dos sem-teto, enquanto políticos burgueses corruptos, assassinos, etc., permanecem à solta.
As discordâncias no interior do movimento dos trabalhadores devem ser discutidas democraticamente. Quando se trata do enfrentamento com a classe dominante e seu governo, que está matando, prendendo, perseguindo, demitindo, punindo os lutadores e grevistas, a solidariedade deve ser incondicional. Os ataques contra qualquer militante de esquerda são ataques contra todos nós e contra a classe trabalhadora.
Diante desses ataques, todas as forças devem se unir entorno de uma ampla campanha nacional em defesa das lutas dos trabalhadores, exigindo direitos democráticos, direito de greve e de manifestação para os que lutam e a prisão dos assassinos, mandantes e dos cúmplices que se escondem atrás de um terno. Em relação às greves é importante que as entidades, além de apoiarem politicamente, também façam campanha de doações para o fundo de greve dos trabalhadores em greve.
•Todo apoio às greves dos trabalhadores da USP e do Judiciário!
•Não às punições contra os grevistas e lutadores!
•Liberdade para todos os militantes dos movimentos sociais presos, vítimas de perseguição política!
•Expropriação do latifúndio e do agronegócio! Terra para todos os trabalhadores do campo!
•Reforma Agrária e Urbana sob o controle dos trabalhadores!
•Moradia para todas as vítimas de enchentes e deslizamentos!
•Prisão para todos que atentam contra a vida dos trabalhadores!
•Extinção das milícias armadas, financiadas e mantidas pelo latifúndio!
•Solidariedade, apoio político e ajuda concreta aos companheiros acampados do MTST
segunda-feira, 21 de junho de 2010
JURADOS DO FESTIVAL DE OUTONO "CAFÉ DAS LETRAS!
Peço a todos só um pouco mais de paciência até que os jurados concluam a avaliação dos trabalhos, ok?
Abaixo eu publico os nomes e um pouco sobre cada um dos jurados." (Monica San)

BASILINA PEREIRA
nasceu em Ituiutaba-MG, mas reside em Brasília desde 1983. É professora aposentada, advogada e poeta. Tem 3 filhas e 3 netos. Já participou de 10 antologias e escreveu 9 livros, sendo 8 de poesias:
QUASE POESIA,editado pela LGE editora;
JANELAS, pela editora VERBIS; ambas de Brasília-DF,
ARABESCOS; FLOR ACESA;
VERSO RASGADO, ANTES DO SOL,
TRAVAS DO VENTO,TEMPO CONTRÁRIO e SONHOS ANTIGOS(romance) que serão publicados nos próximos anos.
Publica no Recanto das Letras: http://recantodasletras.uol.com.br/poesias/1299361; no seu blog pessoal: http://poesiasbasilina.blogspot.com/ e no Portal Antonio Poeta: http://basilinapereira.blogspot.com/
EMERSON SBARDELOTTIEscritor capixaba, mora em Vila Velha/ES, bacharel em Turismo, licenciando em História e bacharelando em Teologia.
É vocalista de duas bandas de rock n roll
1º livro: O MISTÉRIO E O SOPRO - ROTEIROS PARA ACAMPAMENTOS JUVENIS E REUNIÕES DE GRUPOS DE JOVENS. Brasília: CPP, 2005.
2º livro: UTOPIA POÉTICA. São Leopoldo: CEBI, 2007.
MANOEL HÉLIOPublica nos blogs:
Jornal de Sericita
http://jornaldesericita.blogspot.com/
Poetas e contistas do ABC
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Tribuna Escrita
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Poesia íntima sempre
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F U T U R O . . .
tá certo, que tava barato,
preço de liquidação.
era pegar ou largar
e otário aqui foi acreditar.
porque acredito em político?
é, aqueles caras que tudo tornam mítico,
tudo de difícil alcance,
mas se o assunto é de seu interesse
num relance tornam-se lépidos.
intrépidos desbravadores de oportunidades.
naquelas de "autoridade"
ou digamos, oportunos aproveitadores de fraquezas,
pois franqueza não lhes é o forte,
desapropriam até do arco iris o pote
se isso lhes provocar a volupia do poder.
pois para ter o que quer que seja esquecem o eleitorado.
o sufrágio vira passado ausente,
o presente? venha a nós
ao vosso reino? nada.
pancada que tomo posse após posse.
mas sabe o que me doi no duro?
achar que com "esses" teremos futuro.
CIDADE DA CRIANÇA
tivessem entregue a Cidade da Criança à iniciativa privada e teriamos com certeza um parque digno da grande cidade que "poderia" ser S B Campo.
falo com conhecimento de causa, minha falecida sogra foi proprietária de uma loja no local e meus filhos foram criados lá dentro, bons tempos, mas o que se conserva de bom por aqui?
dêem uma passa no setor de Memória e Acervo na al. Glória n° 197 - centro e vejam o descaso de "nossos administradores" com a memória histórico/social do município, porque então se preocupar com nossas famílias? se somos uma cidade que está ficando sem passado para que futuro?
sexta-feira, 18 de junho de 2010
felicidade de ser feliz
Palatável? Diria não usual.
Casual por ser eterna.
Terna por ser simples.
Preenche o mais vago coração.
Concessão, só se lha damos.
Danos? Nenhum causa.
É asa do espírito.
Andando nos faz pisar macio.
Ao fio do dia assobiando.
Cantando, compondo novo som.
Dom? Não enlevo.
Bateu a alegria verdadeira.
Maneira, agradável, bastante real.
Original, pura e individual.
Pessoal e transferível.
Ao sorriso que desperta,
se oferta, sem o menor custo,
sem susto, sem contra-indicação.
Condição? Ser feliz.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
O PRIAPISMO CEREBRAL DE "A TAÇA DO MUNDO É NOSSA"
Nome original: Casseta & Planeta: a taça do mundo é nossa
Produção: Brasil
Ano: 2003
Idiomas: Português
Diretor: Lula Buarque de Hollanda
Roteiro: Bussunda, César Cardoso
Elenco: Beto Silva, Bussunda, Cláudio Manoel, Hélio de la Pena, Hubert, Marcelo Madureira, Reinaldo, Maria Paula, Deborah Secco, Tony Tornado, Carlos Alberto Torres, Jair de Oliveira, Raphael Primo
Gênero: comédia, crime, romance, guerra
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/
O priapismo é uma doença que ataca o órgão sexual masculino. Essa doença provoca um estado de ereção duradoura do pênis. A ereção prolongada do pênis, numa crise priápica, pode transcorrer durante muitas horas. Uma ereção que se prolonga por muitas horas a fio pode se tornar extremamente dolorosa. Insuportavelmente dolorosa. Nos casos mais graves, o priapismo pode provocar a queda do órgão. E o homem priápico fica sem pênis.
Já o priapismo cerebral é uma doença que ataca os seres cuja imaginação se torna predominantemente fálica. O cérebro dessa pessoa é como um pênis permanentemente ereto. Ele só pensa naquilo. O priapismo cerebral acaba por inviabilizar o raciocínio e reduz a vítima a uma condição similar a um sem-cérebro. Essa imaginação doentia enxerga uma metáfora sexual em qualquer fala, discurso, gesto ou situação. A metáfora sexual priápica é uma imagem de dominação e destruição do outro. O sexo não é, para essa imaginação, um ato de amor, mas um ato de subjugação, dominação, destruição, ridicularização.
O priapismo cerebral concebe o sexo de maneira pejorativa. O sexo é sacanagem, é safadeza, é pecado. Tanto o beato celibatário como o priápico cerebral concebem o sexo de forma pervertida. E a perversão de um alimenta dialeticamente a do outro. O sexo é o mal. Fazer sexo é fazer o mal. Como conseqüência, não se pode falar de sexo sem usar palavrões. Palavras propositalmente feias, ultrajantes, nojentas, que degradam o objeto e o expulsam do discurso formal. Na linguagem vulgar, fazer sexo é foder. Mas foder também significa subjugar, dominar, destruir o outro. Fulano está fodido: fulano está destruído, subjugado, dominado, ridicularizado, diminuído, arrasado, perdido. Quando se tem ódio de alguém, o usual é mandar que vá tomar no cu, o que também é uma modalidade de ato sexual.
O cérebro priápico está numa busca insana de situações onde possa ver o outro sendo fodido. Ele tem sua maior satisfação no ato de ver alguém sendo fodido. O priapismo cerebral está sempre à procura de atos falhos na linguagem coloquial alheia, por meio dos quais alguém revela, inadvertidamente, que está fodido. Quando alguém diz qualquer coisa com uma conotação vagamente sexual, o cérebro priápico dispara em gargalhada. Esse alguém se fodeu. Sempre há algo oculto, por trás do que se fala (por trás?).
O problema do priapismo cerebral não é o sexo em si. Não se trata de ser contra o sexo, o que não faz o menor sentido, mas contra uma imaginação sexual pervertida. Como qualquer pessoa, este escriba também faz sexo, também gosta de sexo e não vê nada de errado em que as pessoas façam sexo, nem que falem de sexo. Quanto mais sexo melhor. Faça amor, não faça guerra. A liberdade sexual é uma conquista humanista importantíssima. Uma liberdade revolucionária. Torna as pessoas conscientes de seus corpos, do seu poder de criar o prazer e da satisfação de uma relação humana plena. A liberdade sexual cria uma área de autonomia para a individualidade num mundo de relações fetichizadas.
O que acontece porém, quando o sexo se transforma ele próprio num produto da indústria cultural? O que acontece quando a mídia passa a insinuar metáforas sexuais em todos os seus conteúdos? O que acontece quando o homem passa a fazer sexo para satisfazer as mesmas demandas que satisfaz por meio da compulsão consumista?
A publicidade não vende mais produtos, vende o apelo sexual vinculado ao produto. O valor das coisas não está no produto em si, que é indiferente, mas na faculdade de agregar apelo sexual que a publicidade a ele associa. O subtexto de 99,99% da publicidade diz, às vezes implícita, às vezes explicitamente, algo como: “consuma tal produto e torne-se assim sexualmente desejável, a ponto desta mulher ou deste homem da propaganda desejarem fazer sexo com você”.
O sexo assim desnaturado produz uma eterna insatisfação. Não basta ao sexo ser apenas satisfatório. Tem que ser espetacular, como são espetaculares as imagens da publicidade. Fazemos sexo com pessoas comuns, mas precisamos imaginar que o fazemos com modelos de propaganda de cerveja. Da distância entre as pessoas normais e o objetos sexuais que a publicidade faz desejar, surge a sensação de incompletude, que precisa ser saciada por meio do consumo. Consumir é sinônimo de comer. Que é sinônimo de foder.
Há que se fazer essa distinção ao falar de sexo na indústria cultural. Até que ponto está se falando em liberdade sexual autêntica e até que ponto está se falando em uma modalidade de sexo fetichizado e desnaturado?
Essa discussão prévia serve de introdução para um comentário a respeito do filme “A taça do mundo é nossa”, produzido pelo grupo de humoristas do Casseta & Planeta (introdução?). O priapismo cerebral é a fonte do humor de “A taça o mundo é nossa”. O humor que apela para a interpretação diretamente sexual do discurso é um humor pobre de imaginação. Assim como é pobre o filme de terror que apela para efeitos especiais e monstros horrendos, porque não consegue criar sustos por meio da insinuação. Assim como a transmissão de futebol que apela para milhares de ângulos de câmera para mostrar uma mesma jogada, porque não há mais jogadas espetaculares a serem mostradas.
Todos esses sintomas são sinais de uma decadência da imaginação na indústria cultural. É sob esse aspecto que um filme como “A taça do mundo é nossa” pode ser criticado. Não se trata pois de ser contra a imaginação sexual e erótica por trás do filme (por trás?). Trata-se de ser contra a banalização, a artificialidade, a imediaticidade, o caráter explícito do que é exibido.
Aparentemente, trata-se de um filme de humor. Mas o único humor que o filme consegue expressar é o de natureza diretamente sexual. Não se trata sequer de piadas de duplo sentido, já que não há sutileza alguma e o sentido que deveria ser oculto está na verdade imediatamente exposto. Não há inteligência, complexidade, articulação do pensamento, surpresa, uso hábil das palavras, todos os requisitos para um humor de qualidade. Há apenas a grosseria escancarada.
Aqui, mais uma vez, é preciso dizer que não se trata também de ser contra o humor. Pode-se aplicar ao humor o mesmo raciocínio que se aplicava a respeito do sexo. Pode-se dizer que existe o humor saudável e necessário, assim como o humor degradado. A ironia fina, o sarcasmo demolidor, a dialética precisa das frases de efeito, são componentes importantíssimos de um eficiente discurso humorístico. Mas não é o caso de “A taça do mundo é nossa.” É claro que nem todo humor precisa ser sofisticado ou “intelectualizado” (mas que teria muito mais graça, teria). O caso é que o humor não precisava ser tão burro.
Não se trata também de rejeitar o objeto do humor. Ao humor tudo deve ser permitido. Quando se impuser um tabu sobre o que o humorista pode falar ou não, onde estará a graça? A graça está precisamente em falar do que não se pode falar. O humor quebra o gelo do sagrado. O humor é também, como o sexo, uma zona de liberdade nas relações sociais (zona?). Quanto mais humor no mundo, melhor. É o lubrificante das relações sociais (lubrificante?).
A questão é: até que ponto faz sentido criticar um filme de humor? Trata-se de uma forma menor de arte. Uma arte rasteira, despretensiosa, para consumo rápido. Que significados pode revelar um filme desse tipo?
O filme do Casseta & Planeta revela, tão somente, o domínio endêmico do priapismo cerebral na cultura brasileira. Como de resto o faz o programa semanal da rede Globo de TV. Essa revelação contém um certo mérito, que não se pode deixar de reconhecer. Talvez um mérito que não compense seus inúmeros defeitos, mas mesmo assim um mérito. Afinal, o Tabajara F. C. sempre perde de goleada, mas não deixa de fazer um golzinho de honra de vez em quando.
Antes de falar sobre o mérito inserido no conteúdo do filme (inserido?), é importante também reconhecer o mérito do grupo pelo objeto de humor que escolheram. “A taça do mundo é nossa” é um filme de época. Está ambientado no ano de 1970, quando o Brasil da ditadura ganhou o tricampeonato mundial (uma espécie de penta daquela época...). O filme de época exige uma certa elaboração dos conteúdos, que não pode ser desprezada. Não é um simples episódio de Casseta & Planeta estendido, como o filme dos Normais é apenas um episódio de “Os Normais” estendido. “A taça do mundo é nossa” corre até o risco de não ser entendido por uma parte do público habitual do Casseta & Planeta. Aquela parte que não conhece história do Brasil.
A escolha do objeto é um ponto positivo, assim como o tratamento dado a ele. O mérito que há no conteúdo do filme está em expor, por meio do escracho, o quão ridículo é o Brasil. O humor de “A taça do mundo é nossa” é do tipo auto-depreciativo. O humor que zomba da nacionalidade. Esculhamba com a nacionalidade. Não deixa pedra sobre pedra. Dos militares aos comunistas, o escracho é total. Há uma certa sabedoria no ato de rir das próprias misérias. Quem se ofende com a grosseria (grosseria?) não tem a sabedoria para rir de si mesmo e de suas próprias idéias.
Mesmo com toda baixaria e falta de inteligência, o filme do Casseta & Planeta ainda traz algumas lições preciosas. A história da ditadura e da luta armada se transforma em comédia vulgar. Triste fim para as esperanças da revolução brasileira. Esse filme todos nós já vimos. O Brasil de 1970 se mostra igual ao de 2003. Ou vice-versa. O Brasil do Presidente Sassá Mutema se mostra tão ridículo quanto o dos generais de Casseta & Planeta. À direita e à esquerda, não escapa ninguém do escárnio.
Há que se ressaltar que a conquista a taça não resolve nada. Como a do penta não resolveu. O que o Brasil quer mesmo é ganhar o Oscar. E isso acaba de fato acontecendo no filme, por força de uma sucessão de eventos mirabolantes. Confessa-se, além da auto-imagem distorcida e depreciativa, a submissão à necessidade de uma aprovação vinda de fora, do Oscar. O Oscar é uma obsessão da cultura nacional. Nós o amamos e odiamos, até trocamos a taça do mundo por ele. Para o psicologuês vulgar, trata-se de um sinal de adoração por ícones fálicos.
A gente somos inútil. O Brasil é um país de fodidos. Somos fodidos e gostamos, diz o humor do grupo. No país onde se busca levar vantagem em tudo, levar vantagem é sinônimo de foder. Foda os outros antes de ser fodido. Já que não se pode ter qualquer liberdade verdadeira neste país fodido, temos pelo menos a liberdade de foder uns com os outros alegremente. Fodamos e sejamos fodidos, esse é o jogo.
Se não se pode vencer o sistema, junte-se a ele. Como Che Guevara (que vara?), que finge de morto para viver da venda de camisetas alimentada pelo mito de sua suposta morte. O mundo é dos espertos. A revolução é impossível como realidade, mas é atraente como produto. Vendamos a revolução! Vendamos a liberdade como fetiche. A caricatura de Che é uma ofensa a Che ou uma sátira aos seguidores pós-modernos de Che? Tanto faz. Uma se dá por meio da outra (dá?). Quem se ofende que se foda. Aliás, o que um comunista faria no cinema vendo um filme como este? A turma do Casseta dá o recado e explode o crítico que se atreve a criticar o filme, no debate após o filme, dentro do filme. Esse negócio de criticar filme é típico de gente que leva as coisas por outro lado (por outro lado?).
Na pseudo-ideologia priápica do grupo, revela-se uma espécie de auto-imagem do país condensada do senso comum brasileiro. O filme se estrutura em cima de uma certa interpretação da percepção que o brasileiro tem de si. Na apologia priápica casseteana, o Brasil é o país do sexo, do futebol e do humor, que são manifestações de uma atávica permissividade malemolente, na qual todo brasileiro se reconhece e se compraz.
O Brasil é o país onde nada é sério e se leva tudo no jeitinho. O jeitinho, é preciso dizer, possui um sinal histórico ambivalente. Há o jeitinho na versão das classes dominantes, que sem cerimônia colocam o público a serviço do privado, como extensão de seu patrimônio. Há o jeitinho que engendra a corrupção e o que engendra a resistência e a criatividade. Há o jeitinho das classes subalternas, que se viram para sobreviver nos meandros da informalidade econômica, social e cultural.
Em resumo, o brasileiro gosta de ser brasileiro, porque ser brasileiro é sinônimo de ser fracassado. Ser fracassado é ridículo e penoso, mas também é engraçado. Essa condição antropológica especial lhe autoriza a zombar de si mesmo. E nessa zombaria, tanto pode encontrar-se a motivação para a mudança como o pretexto para se eximir de ter qualquer atitude séria. E sem precisar ser sério, não precisa enfrentar as tarefas da construção do país. O Casseta & Planeta dá conta apenas da primeira parte dessa equação, a da zombaria.
O jeitinho não dá jeito em nada e continuamos todos na mesma. Para quem acha graça nisso, há muito com que rir em “A taça do mundo é nossa”. Este escriba não vai estragar nenhuma piada, porque é péssimo para contar piadas, como puderam perceber os leitores ao longo desse texto (longo?). Melhor deixar por conta dos profissionais do Casseta. Faço esse comentário a título de advertência, para que cada um saiba o que fazer e onde esconder o próprio cérebro na hora do filme.
Como disse antes, o problema do priapismo cerebral é que, assim como acontece no caso do mal peniano, ele pode acarretar a perda do órgão. O priapismo peniano tem uma origem física, enquanto que o cerebral é uma questão de escolha. Mas o que eu tenho a ver com isso? No final das contas, o que eu tenho a ver com o que as pessoas fazem, com o que gostam ou não gostam? Que se fodam!
Daniel M. Delfino
22/11/2003
Texto extraído do site do Espaço Socialista.
C O N V O C A Ç Ã O
quarta-feira, 16 de junho de 2010
CANÇÃO DO MIGRANTE
Dos seus rios , vales e montanhas
Da minha casa e do meu povo
Do cheiro do cacau e das pedras preciosas
Por terras estranhas estou a vagar
Aqui encontrei meu amor, sofro minhas dores
São quase quatro décadas longe de ti
Guardo na memória cada lembrança do passado
O quê seria de mim, sem suas raízes
O quê será de mim, com tantas saudades
O quê será de ti minha amada Macarani
Sem o retorno de seu filho pródigo
(Manoel Hélio)
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/manoelhelio
O SINDSERV PODERÁ TER DOIS VOTOS!
O presidente do Sindicato votará pelo segmento: Sindicato dos Trabalhadores, inscrição de nº 5 e o vice-presidente do Sindicato votará pelo segmento: Movimento Popular, inscrição de nº 45, portanto o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais e Autárquicos de São Bernardo do Campo (SindservSBC), indiretamente poderá contar com dois votos! [2]
Eu ainda não consegui entender o que diz o artigo 57 do Estatuto vigente do SindservSBC, onde se lê:
DA PERDA DE MANDATO
.
Art.57º. Os membros titulares dos orgãos de direção, fiscalização e representação do Sindicato, perderão o mandato nos seguintes casos:
.
I - malversação ou dilapidação do patrimônio do Sindicato;
.
II - grave violação deste Estatuto;
.
III - aceitação ou solicitação de transferência que importe no afastamento do exercício do cargo;
.
IV - assumir cargos ou funções de confiança junto à Prefeitura, à Câmara ou às Autarquias Municipais, bem como junto a Diretoria de outras entidades.
.
(Estatuto do Sindicato dos Servidores Públicos e Autárquicos de São Bernardo do Campo, em vigor)
Peço a ajuda do médico Dr. Nelson Nisenbaum e do jornalista Marcelo Sarti e dos leitores aqui do CLIQUE ABC, para que eu possa entender este artigo, principalmente está parte: "... bem como junto a Diretoria de outras entidades." [3]
Entidades com inscrições indeferidas:
1. Cooper ABC Rádio Táxi;
2. Cooperativa Transportadoras Escolares SBC;
3. Esporte Clube Novo Horizonte;
4. Sociedade Esportiva Jardim do Lago;
5. Esporte Clube Itapiruna;
6. Associação Municipal de Agentes Comunitários de Saúde de São Bernardo do Campo;
7. Associação Brasileira de Resgate e Administração de Emergências - ABRAE.
Se as entidades acima relacionadas tivessem um estatuto flexível como o do Sindicato, os seus diretores poderiam participar de outras entidades e assim de uma forma ou de outra poderiam representar os seus interesses no Conselho da Cidade e do Meio Ambiente de São Bernardo do Campo.[4]
Manoel Hélio - São Bernardo - 13/07/2010
Referências Bibliográficas:
[1] Notícias do Município, Publicação Oficial do Município de São Bernardo do Campo, 11/06/2010, nº 1.564, páginas 15 e 16.
[2] Apostila nº 001/10 - SA.4, publicada no Notícias do Município, Publicação Oficial do Municipio de São Bernardo do Campo, 15/01/2010, nº 1.542, página 10.
[3] Estatuto do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais e Autárquicos de São Bernardo do Campo, feveiro/2004, 1º Oficial de Registro Civil de Pessoa Jurídica, São Bernardo do Campo, SP, registro nº 181820.
[4] Site do SindservSBC, Composição da Diretoria, www.sindservsbc.org.br
FONTE: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/2319623, acessado em 29/10/2010.
terça-feira, 15 de junho de 2010
politica?
D E T E S T O, a forma como os políticos a tratam (a política), escudando-se em agremiações em detrimento do verdadeiro sentimento de "seu eleitorado".
invariavelmente, eu disse e afirmo "invariavelmente", tem no puxar a sardinha para sua brasa seu mote de trabalho, ou seja, em campanha discursos de noivo ao pai da pretendida, depois se eleito interesse apenas no dote daquela que lhe foi dada em núpcias.
é triste, mas é o raio-x da verdade.
criei o péssimo costume de vez por outra assistir as TV Senado, TV Assembleia, TV Camara dos Vereadores do ABC, sabe é puro descaso, "legislando em causa própria" deveria ser o nome dos programas, o pior, viu um, viu todos.
vou citar algumas questões, não espero sua resposta, mas sim sua reflexão.
porque?:-
-deixamos escapar o título merecidíssimo de Capital dos Móveis?
- permitiu-se a evasão das novas unidades da ind. automobilísticas para outros, municípios e estados, nos sobrando a mão de obra que a deriva nos "presenteou" com mais de cem favelas? sua esposa presenciou isso de perto quando capitaneou a SEDESC.
-porque se governa o município com pessoas, que não lhes ignorando a capacidade administrativa, nem perto do município moram? ajuste partidário? ou "mutreta" pura?
-será que dentre os filhos desta terra não teríamos um nome que, conhecendo viceralmente o municipio, auxilia-se em sua administração?
política é isso?
então sou apolítico e mais, no momento oportuno, como o fizeram inumeros munícipes de tradição , deixo essa cidade com saudades dos anos em que nela podiamos contar dom seus governantes.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
ARISTÍDES THEODORO
— O poeta e jornalista Aristídes Theodoro presta depoimento sobre o Poeta Castelo Hanssen e o Colégio Brasileiro de Poetas na Oficina de Poesia do Grupo Literário Taba de Corumbê. Mauá, 12 de julho de 2009. Teatro Municipal de Mauá - Mauá - SP - Brasil.
AS IDEIAS COM AS QUAIS NOS AFINAMOS
Introdução
Em 1938, na Cidade do México, o revolucionário russo Leon Trotsky e o poeta surrealista francês André Breton redigiram, após longas discussões, o manifesto “Por uma arte revolucionária e independente”. Embora tivessem encontrado-se pela primeira vez poucos meses antes da redação do manifesto, anos antes um forte laço vinha se formando entre estas duas personagens tão importantes quanto diferentes do século XX. Quando ainda membro do Partido Comunista Francês (PCF) , no começo da década de 30, Breton e alguns outros artistas próximos a ele rejeitam a chamada “literatura proletária”, imposta pelo estalinismo, através da Associação Russa de Escritores Proletários (AREP). Neste debate, travado dentro da Associação de Escritores e Artistas Revolucionários (AEAR), utilizam argumentos próximos das teses desenvolvidas por Trotsky na obra Literatura e Revolução, escrita em 1924. Mais tarde, em 1934, assumem abertamente postura contrária à expulsão de Trotsky da França e saúdam “o organizador do Exército Vermelho que permitiu ao proletariado conservar o poder apesar do mundo capitalista coligado contra ele”, no panfleto “Planeta sem passaporte”. No ano de 1935, rompem definitivamente com o PCF, no congresso internacional de escritores em defesa da cultura. Entre 1936 e 1938, a Rússia vê, apavorada, sob as ordens de Stálin, os opositores à burocracia contra-revolucionária que assumira o controle do país serem assassinados ou deportados, naquilo que ficou conhecido como os Processos de Moscou. Quando Trotsky e Breton se encontravam pela primeira vez, em maio de 1938, os últimos sobreviventes da Oposição de Esquerda russa estavam sendo assassinados. O manifesto escrito em 25 de julho faz o chamado à construção da Federação Internacional da Arte Revolucionária e Independente (FIARI), a qual, surgida às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial, teve uma breve existência. No entanto, mesmo tendo se dissolvido ainda no início de 1939, a FIARI e seu manifesto cumpriram o papel ao qual se propunham. Da FIARI, enquanto existiu, o de aglutinar os artistas que não viam a solução para os problemas da arte nem no capitalismo, de regime fascista ou democrático, nem no autoritarismo estalinista. Do manifesto, o de ser o grito das novas gerações que buscam sua liberdade de criação, sua emancipação, rumo à revolução socialista mundial
Por uma Arte Revolucionaria Independente
André Breton e Leon Trotsky
1) Pode-se pretender sem exagero que nunca a civilização humana esteve ameaçada por tantos perigos quanto hoje. Os vândalos, com o auxílio de seus meios bárbaros, isto é, deveras precários, destruíram a civilização antiga num canto limitado da Europa. Atualmente, é toda a civilização mundial, na unidade de seu destino histórico, que vacila sob a ameaça das forças reacionárias armadas com toda a técnica moderna. Não temos somente em vista a guerra que se aproxima. Mesmo agora, em tempo de paz, a situação da ciência e da arte se tornou absolutamente intolerável.
2) Naquilo que ela conserva de individualidade em sua gênese, naquilo que aciona qualidades subjetivas para extrair um certo fato que leva a um enriquecimento objetivo, uma descoberta filosófica, sociológica, científica ou artística aparece como o fruto de um acaso precioso, quer dizer, como uma manifestação mais ou menos espontânea da necessidade. Não se poderia desprezar uma tal contribuição, tanto do ponto de vista do conhecimento geral (que tende a que a interpretação do mundo continue), quanto do ponto de vista revolucionário (que, para chegar à transformação do mundo, exige que tenhamos uma idéia exata das leis que regem seu movimento). Mais particularmente, não seria possível desinteressar-se das condições mentais nas quais essa contribuição continua a produzir-se e, para isso, zelar para que seja garantido o respeito às leis específicas a que está sujeita a criação intelectual.
3) Ora, o mundo atual nos obriga a constatar a violação cada vez mais geral dessas leis, violação à qual corresponde necessariamente um aviltamento cada vez mais patente, não somente da obra de arte, mas também da personalidade “artística”. O fascismo hitlerista, depois de ter eliminado da Alemanha todos os artistas que expressaram em alguma medida o amor pela liberdade, fosse ela apenas formal, obrigou aqueles que ainda podiam consentir em manejar uma pena ou um pincel a se tornarem os lacaios do regime e a celebrá-lo de encomenda, nos limites exteriores do pior convencionalismo. Exceto quanto à propaganda, a mesma coisa aconteceu na URSS durante o período de furiosa reação que agora atingiu seu apogeu.
4) É evidente que não nos solidarizamos por um instante sequer, seja qual for seu sucesso atual, com a palavra de ordem: “Nem fascismo nem comunismo”, que corresponde à natureza do filisteu conservador e atemorizado, que se aferra aos vestígios do passado “democrático”. A arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a. criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se a alturas que só os gênios isolados atingiram no passado. Ao mesmo tempo, reconhecemos que só a revolução social pode abrir a via para uma nova cultura. Se, no entanto, rejeitamos qualquer solidariedade com a casta atualmente dirigente na URSS, é precisamente porque no nosso entender ela não representa o comunismo, mas é o seu inimigo mais pérfido e mais perigoso.
5) Sob a influência do regime totalitário da URSS e por intermédio dos organismos ditos “culturais” que ela controla nos outros países, baixou no mundo todo um profundo crepúsculo hostil à emergência de qualquer espécie de valor espiritual. Crepúsculo de abjeção e de sangue no qual, disfarçados de intelectuais e de artistas, chafurdam homens que fizeram do servilismo um trampolim, da apostasia um jogo perverso, do falso testemunho venal um hábito e da apologia do crime um prazer. A arte oficial da época estalinista reflete com uma crueldade sem exemplo na história os esforços irrisórios desses homens para enganar e mascarar seu verdadeiro papel mercenário.
6) A surda reprovação suscitada no mundo artístico por essa negação desavergonhada dos princípios aos quais a arte sempre obedeceu, e que até Estados instituídos sobre a escravidão não tiveram a audácia de contestar tão totalmente, deve dar lugar a uma condenação implacável. A oposição artística é hoje uma das forças que podem com eficácia contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar a um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana.
7) A revolução comunista não teme a arte. Ela sabe que ao cabo das pesquisas que se podem fazer sobre a formação da vocação artística na sociedade capitalista que desmorona, a determinação dessa vocação não pode ocorrer senão como o resultado de uma colisão entre o homem e um certo número de formas sociais que lhe são adversas. Essa única conjuntura, a não ser pelo grau de consciência que resta adquirir, converte o artista em seu aliado potencial. O mecanismo de sublimação, que intervém em tal caso, e que a psicanálise pôs em evidência, tem por objeto restabelecer o equilíbrio rompido entre o “ego” coerente e os elementos recalcados. Esse restabelecimento se opera em proveito do ”ideal do ego” que ergue contra a realidade presente, insuportável, os poderes do mundo interior, do “id”, comuns a todos os homens e constantemente em via de desenvolvimento no futuro. A necessidade de emancipação do espírito só tem que seguir seu curso natural para ser levada a fundir-se e a revigorar-se nessa necessidade primordial: a necessidade de emancipação do homem.
8) Segue-se que a arte não pode consentir sem degradação em curvar-se a qualquer diretiva estrangeira e a vir docilmente preencher as funções que alguns julgam poder atribuir-lhe, para fins pragmáticos, extremamente estreitos. Melhor será confiar no dom de prefiguração que é o apanágio de todo artista autêntico, que implica um começo de resolução (virtual) das contradições mais graves de sua época e orienta o pensamento de seus contemporâneos para a urgência do estabelecimento de uma nova ordem.
9) A idéia que o jovem Marx tinha do papel do escritor exige, em nossos dias, uma retomada vigorosa. É claro que essa idéia deve abranger também, no plano artístico e científico, as diversas categorias de produtores e pesquisadores. "O escritor, diz ele, deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro... O escritor não considera de forma alguma seus trabalhos como um meio. Eles são objetivos em si, são tão pouco um meio para si mesmo e para os outros que sacrifica, se necessário, sua própria existência à existência de seus trabalhos... A primeira condição da liberdade de imprensa consiste em não ser um ofício. Mais que nunca é oportuno agora brandir essa declaração contra aqueles que pretendem sujeitar a atividade intelectual a fins exteriores a si mesma e, desprezando todas as determinações históricas que lhe são próprias, dirigir, em função de pretensas razões de Estado, os temas da arte. A livre escolha desses temas e a não-restrição absoluta no que se refere ao campo de sua exploração constituem para o artista um bem que ele tem o direito de reivindicar como inalienável. Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a qualquer coação, não se deixe sob nenhum pretexto impor qualquer figurino. Àqueles que nos pressionarem, hoje ou amanhã, para consentir que a arte seja submetida a uma disciplina que consideramos radicalmente incompatível com seus meios, opomos uma recusa inapelável e nossa vontade deliberada de nos apegarmos à fórmula: toda licença em arte.
10) Reconhecemos, é claro, ao Estado revolucionário o direito de defender-se contra a reação burguesa agressiva, mesmo quando se cobre com a bandeira da ciência ou da arte. Mas entre essas medidas impostas e temporárias de autodefesa revolucionária e a pretensão de exercer um comando sobre a criação intelectual da sociedade, há um abismo. Se, para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, cabe à revolução erigir um regime socialista de plano centralizado, para a criação intelectual ela deve, já desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando! As diversas associações de cientistas e os grupos coletivos de artistas que trabalharão para resolver tarefas nunca antes tão grandiosas unicamente podem surgir e desenvolver um trabalho fecundo na base de uma livre amizade criadora, sem a menor coação externa.
11) Do que ficou dito decorre claramente que ao defender a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita “pura” que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Não, nós temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.
12) Na época atual, caracterizada pela agonia do capitalismo, tanto democrático quanto fascista, o artista, sem ter sequer necessidade de dar a sua dissidência social uma forma manifesta, vê-se ameaçado da privação do direito de viver e de continuar sua obra pelo bloqueio de todos os meios de difusão. É natural que se volte então para as organizações estalinistas que lhe oferecem a possibilidade de escapar a seu isolamento. Mas sua renúncia a tudo que pode constituir sua mensagem própria e as complacências terrivelmente degradantes que essas organizações exigem dele em troca de certas vantagens materiais lhe proíbem manter-se nelas, por menos que a desmoralização seja impotente para vencer seu caráter. É necessário, desde este instante, que ele compreenda que seu lugar está além, não entre aqueles que traem a causa da revolução e ao mesmo tempo, necessariamente, a causa do homem, mas entre aqueles que dão provas de sua fidelidade inabalável aos princípios dessa revolução, entre aqueles que, por isso, permanecem como os únicos qualificados para ajudá-Ia a realizar-se e para assegurar por ela a livre expressão ulterior de todas as manifestações do gênio humano.
13) O objetivo do presente apelo é encontrar um terreno para reunir todos os defensores revolucionários da arte, para servir a revolução pelos métodos da arte e defender a própria liberdade da arte contra os usurpadores da revolução. Estamos profundamente convencidos de que o encontro nesse terreno é possível para os representantes de tendências estéticas, filosóficas e políticas razoavelmente divergentes. Os marxistas podem caminhar aqui de mãos dadas com os anarquistas, com a condição que uns e outros rompam implacavelmente com o espírito policial reacionário, quer seja representado por Josef Stálin ou por seu vassalo Garcia Oliver.
14) Milhares e milhares de pensadores e de artistas isolados, cuja voz é coberta pelo tumulto odioso dos falsificadores arregimentados, estão atualmente dispersos no mundo. Numerosas pequenas revistas locais tentam agrupar a sua volta forças jovens, que procuram vias novas e não subvenções. Toda tendência progressiva na arte é difamada pelo fascismo como uma degenerescência. Toda criação livre é declarada fascista pelos estalinistas. A arte revolucionária independente deve unir-se para a luta contra as perseguições reacionárias e proclamar bem alto seu direito à existência. Uma tal união é o objetivo da Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente (FIARI) que julgamos necessário criar.
15) Não temos absolutamente a intenção de impor cada uma das idéias contidas neste apelo, que nós mesmos consideramos apenas um primeiro passo na nova via. A todos os representantes da arte, a todos seus amigos e defensores que não podem deixar de compreender a necessidade do presente apelo, pedimos que ergam a voz imediatamente. Endereçamos o mesmo apelo a todas as publicações independentes de esquerda que estão prontas a tomar parte na criação da Federação Internacional e no exame de suas tarefas e métodos de ação.
16) Quando um primeiro contato internacional tiver sido estabelecido pela imprensa e pela correspondência, procederemos à organização de modestos congressos locais e nacionais. Na etapa seguinte deverá reunir-se um congresso mundial que consagrará oficialmente a fundação da Federação Internacional.
O que queremos:
a independência da arte - para a revolução
a revolução - para a liberação definitiva da arte.
Cidade do México, 25 de julho de 1938
dilema
em balanço busco novas formas no céu.
O véu da noite me cobre a retina,
retira-me o direito ao horizonte.
As sombras tremem ao ritmar da vela,
vê-la torna-se missão impossível.
Intangível temor se apossa de minha alma,
a calma em salvação me embala o sono.
O novo chega e em tua busca sigo,
inimigo se faz de mim o tempo.
Tento segura-lo pelos ponteiros,
certeiros avançam impassíveis.
Mas por certo o temido se achega,
e aconchega em mim um último suspiro.
Respiro fundo, as férias acabaram.

